
Que dizer de um espetáculo belíssimo, com atores maravilhosos, figurinos deslumbrantes, direção precisa e texto supremo? Nada! Diria que a montagem de O Avarento, em cartaz no Teatro de Câmara Túlio Piva, de 14/08 a 06/09 (sextas e sábados, 21h e domingos 20h) está no limiar da perfeição. Se não chega à perfeição é porque leva em conta aquele ditado que diz: "Se melhorar, estraga!". No teatro, nunca um espetáculo é igual ao outro, pois a reação do público influencia diretamente na execução da peça, contribuindo (ou não) para seu andamento. Portanto, se o espetáculo de Gilberto Fonseca em questão fosse perfeito, se tornaria chato.
No entanto, o que se vê no palco é o resultado merecido de dois anos de trabalho e pesquisa sobre esse maravilhoso texto de Molière. Além disso, vê-se com clareza que o patrocínio da Petrobrás, conquistado através de premiação da FUNARTE foi devidamente investido, fazendo com que esse dinheiro retorne em espetáculos de altíssima qualidade, enriquecendo a cultura do Brasil.
Gilberto Fonseca e o Grupo Farsa claramente fazem as suas próprias (e respeitosíssimas) interpretações da obra de Molière, dando um sopro de atualidade que aproxima o texto do espectador. Texto aqui num sentido mais geral, significando tudo aquilo que está entre o artista e o público no momento da representação. A história, os quiproquós, os personagens, entre outros aspectos "textuais" da montagem foram tão aprofundados que alcançam o público de forma certeira, tornando popular uma linguagem rebuscada como a de Molière. E tudo isso é claramente apresentado ao público através da mais que competente direção de Gilberto Fonseca, mostrando que sabe muito bem como dominar os mecanismos de uma boa mise-en-scène.
Destaco o recurso do teatro musical usado para intensificar a dramaticidade de algumas cenas, sem deixar que caia no melodrama, mantendo coerente a linguagem do espetáculo. Esse recurso foi bem utilizado na medida em que dá a dose certa de "dramalhão" que a peça precisa. Percebe-se, na direção de Gilberto Fonseca, que ele deixa o espetáculo no nível exato em que ele quer, nem mais, nem menos. No entanto, acredito que não faria mal ao espetáculo mais momentos como esses.
Outro recurso que chama a atenção em O Avarento é o fato de os atores estarem sempre em cena, ressaltando o ofício do ator, desfazendo a ilusão do personagem propositadamente, aumentando, dessa forma, o reconhecimento do trabalho deste grande elenco. Pode-se ver claramente a alteração do tônus corporal dos atores quando entram no tapete central ou saem dele. Inspirado no teatro de Peter Brook, esse recurso traz de volta o sentido ritualístico do teatro, de um acordo que se estabelece com a plateia. E o acordo que o Grupo Farsa faz com seu público é: "Vamos nos divertir!"
Quanto aos atores, só o que tenho a dizer é que sinto-me profundamente orgulhoso por ter como colegas de profissão esse elenco de peso. Ariane Guerra, Daiane Oliveira, Elison Couto, João Pedro Madureira, Lucas Krug, Lúcinha Bendati, Marcos Chaves e Zé Mário Storino (assim classificados em ordem alfabética, pois não saberia colocá-los em ordem de importância) formam um elenco extremamente coeso e afinado (inclusive musicalmente), mostrando um alto poder de concentração e contracenação. A facilidade para cair no caricato que o texto proporciona não pegou o elenco de forma alguma. Os personagens são profundos ao mesmo tempo em que são risíveis, mostrando que essa contradição, na prática, não existe.
Acrescentando-se a tudo o que foi dito, tem-se os belíssimos figurinos de Daniel Lion, a certeira trilha sonora de Marcos Chaves e o cenário lindo e eficiente de Gilberto Fonseca e Lucas Krug, que dispensariam os versos da música de abertura e final da peça: "Gostando da nossa peça, aplaudam no final!"